Comunicação

"Pretendemos uma empresa auto-sustentável e com capacidade de investimento"

Teresa Ferreira, Administradora executiva da Águas de Santarém, em entrevista ao Jornal Correio do Ribatejo Afirmou que ” Pretendemos uma empresa auto-sustentável e com capacidade de investimento”.

 

Quais são, na sua opinião, os principais desafios que o sector das Águas enfrenta na actualidade em Portugal?

De entre os vários desafios que se colocam ao sector, eu destacaria, pela sua preponderância e complexidade, o défice tarifário, e consequentes dificuldades de recuperação de custos, bem como o insuficiente ritmo de reabilitação dos activos. Segundo informações do Ministério do Ambiente, em 2014, havia um défice tarifário na ordem dos 500 milhões de euros, e os EVEF’s (estudos de viabilidade económica e financeira) apontavam para um défice de 100 milhões de euros em 2025, se nenhuma medida substancial fosse tomada sobre esta matéria. Parece-me evidente que não é possível, pensando sobretudo no médio e longo prazo, que a exploração de sistemas de importância vital para as populações sejam tão pouco eficientes. Acredito que os sistemas devem e podem ser sustentáveis e que a recuperação de custos é fundamental para a sua própria sustentabilidade. Só assim, poderemos melhorar a prestação do serviço ao cliente, não só na qualidade da água fornecida, mas como no adequado tratamento das águas residuais, entre outros aspectos. A recuperação dos défices tarifários acumulados durante anos não se resolve no curto prazo com uma resposta unicamente ao nível dos tarifários. Tem que se adoptar uma gestão muito racional. Actualmente, com taxas de cobertura muito aceitáveis quer ao nível do abastecimento de água quer do saneamento, as melhorias têm que se fazer ao nível da eficiência, redução de consumos energéticos, melhoria dos processos, redução das perdas de água. Outra questão muito relevante tem a ver com a reabilitação das redes nos últimos anos investiu-se muito na “alta” os níveis de reabilitação dos activos em baixa são insuficientes e urge actuar. Se todas as Entidades Gestoras fizerem investimentos na reabilitação dos seus activos a um mínimo de 1% ao ano, estamos a falar de milhões de euros de investimento anual.

 

E, em concreto, quais são os desafios que a empresa Águas de Santarém perspectiva?

O nosso concelho tem características específicas: uma significativa dispersão geográfica, uma orografia acentuada, grande extensão de rede (cerca de 1000 Km de rede de água e 500 Km de rede de saneamento) para cerca de 30.000 clientes. Temos, portanto, um rácio de extensão de rede por cliente (14 metros / habitante) que é bastante superior à média nacional, o que se traduz em custos acrescidos na manutenção da rede, consumos de energia eléctrica, etc. Para obter ganhos de eficiência, necessitamos de melhorar a “inteligência” no sistema; aumentar a sua resiliência e fiabilidade; reabilitar a rede e reduzir as perdas de água.Ao nível do saneamento, salientaria o aumento da acessibilidade física (ligações à rede); optimização energética das estações elevatórias e controlo de afluências indevidas estima-se que um terço dos volumes tratados pelas correspondem a águas pluviais e infiltrações nas redes há que minimizar estas ocorrências!

 

Que dinâmicas e projectos a AS tem em desenvolvimento para responder a esses desafios?

Encetámos projectos interessantes. Em 2015 participámos na “Iniciativa Nacional para a Gestão Patrimonial de Infra-estruturas (iGPI)” promovido pelo LNEC. Trata-se da construção de um instrumento de planeamento que estabelece, de forma organizada, as directrizes de uma entidade gestora para a gestão patrimonial das Infra-estruturas dos sistemas urbanos de água. Para além de um instrumento obrigatório por lei para todas as EG com um número de clientes superior a 30.000,foi muito importante para facilitar o processo de planeamento, integrando os diferentes níveis de decisão e estruturado em planos estratégico e tácito. Aliás, ao que se sabe, a “Gestão Patrimonial de Infra-estruturas” é uma das “novidades” do novo Regulamento dos Sistemas Públicos e Prediais de Água que está em preparação. Outro dos objectivos que tínhamos e que já concretizámos era concluir em 2016 os planos directores de água e saneamento para o Concelho de santarém, precisamente para nos ajudar a tomar decisões ao nível dos investimentos prioritários para os próximos anos. O objectivo era dispor-se de uma ferramenta de planeamento estratégico para a evolução dos serviços de abastecimento de água e saneamento de águas residuais, a curto e médio prazo, de forma sustentada. Com base em todo o trabalho efectuado, há diferentes linhas de actuação que estamos a adoptar: várias medidas para redução de perdas de água; implementação de planos de exploração das Infra-estruturas (operação e manutenção); actualização do SIG (sistema de informação geográfica) com a informação mais recente disponível; implementação do plano de segurança da água (PSA); exercer maior controlo sobre as afluências indevidas, entre outras.

 

A Águas de Santarém tem feito investimentos avultados na rede de saneamento. Há ainda margem para investimentos futuros?

É sabido que a AS fez nos últimos anos investimentos muito significativos, cerca de 50 milhões de euros, para expandir a rede pública de saneamento e aumentar a população servida. Os investimentos efectuados com apoios comunitários ao abrigo do POVT, estão agora concluídos e todos os novos sistemas estão activos expandimos a rede de saneamento em Santarém, Vale de Santarém, Pernes, Póvoa de Santarém, Tremês, Alcanede, Abrã, Vaqueiros,Almoster, Santos, Alqueidão do Rei e ainda pequenos aglomerados urbanos. Não posso deixar de aproveitar esta oportunidade para fazer um enorme apelo à população abrangida pelos novos sistemas para efectuar a respectiva ligação à rede pública. A existência de caudal é fundamental para a correcta operação dos sistemas e a sustentabilidade dos investimentos efectuados deve ser assegurada. Como referido anteriormente, concluímos e apresentámos publicamente os Planos Directores de Água e Saneamento que identificam os investimentos necessários para os próximos anos. Até 2020, seria desejável a concretização de cerca de 14,5 milhões de euros de investimento, incluindo água e saneamento. Ao nível da água as principais intervenções seriam: reabilitação do sistema elevatório da Ribeira de Santarém (já temos o projecto concluído); construção de novas captações e reservatórios e alteração do modo de funcionamento de alguns sistemas de abastecimento. Ao nível do saneamento, afigura-se como mais premente: controlo de “overflows” em Santarém; reabilitação da ETAR de Santarém (projecto também concluído); dois sistemas de drenagem simplificados para zonas rurais e gestão integrada de lamas. A concretização desta calendarização dependerá muito do acesso a fundos comunitários, designadamente, no âmbito do PO-SEUR.

 

Quais são, exactamente, os futuros planos para o tratamento e reutilização de águas residuais?

Foram estudados vários cenários e definiram-se algumas tipologias de intervenção, como: Construção limitada de novos sistemas de saneamento em áreas rurais (sistema de drenagem simplificado ou convencional + ETAR de leito de macrófitas ou equivalente); Aumento da capacidade hidráulica de emissários e construção de bacias de retenção e câmaras de regulação de caudal, no sistema da cidade de Santarém, para controlo de excedentes de “overflows”; Gestão integrada de lamas (incluindo armazenamento de lamas na ETAR de Tremês,ou em local próximo, e reforço da linha de tratamento da fase sólida); Reabilitação de algumas ETAR e das redes de drenagem.

 

Em termos gerais, quais são os grandes objectivos da empresa no médio prazo?

Eu julgo que já fui respondendo a esta questão nos pontos anteriores. No fundo, os desafios vencem-se com conhecimento: incrementar a inteligência dos sistemas, melhor monitorização e controlo e capacidade para concretizar os investimentos planeados que, genericamente, aqui foram falados. Pretendemos uma empresa auto-sustentável, e com capacidade de investimento, porque só assim conseguirá assegurar uma boa qualidade de serviço à população do concelho de Santarém.

 

As perdas na rede estão na ‘mira’ da empresa? A que se devem?

As perdas de água constituem uma preocupação em que focamos toda a nossa atenção. No fundo e para se perceber, as perdas de água dividem-se em perdas reais e perdas aparentes. As primeiras, correspondem às perdas físicas de água até ao contador do cliente quando o sistema está pressurizado. As perdas reais representam o volume anual de perdas através de todos os tipos de fissuras, roturas ou extravasamentos. Dentro deste valor, estimamos que 50% das fugas ocorrem em ramais de ligação. As perdas aparentes contabilizam todos os tipos de imprecisões associadas às medições de água consumida (erros de leituras, contadores em mau estado…) e ainda o consumo não autorizado (por furto ou uso ilícito). Temos diversas medidas elencadas com vista à redução das perdas, como a sectorização e monitorização das redes; gestão da pressão; controlo activo de fugas (campanhas de detecção); campanha de substituição de contadores; reabilitação de redes de água. Tudo isto é importante e está a ser implementado,mas há dois aspectos nos quais também estamos a trabalhar e que são essenciais para o sucesso: a eficácia na detecção da rotura e velocidade nas reparações (associado ao conhecimento da rede e inteligência) e reforço na detecção e fiscalização de consumos ilícitos.

 

Em Santarém, os consumidores estão despertos para o uso eficiente da água?

Em geral acredito que sim e, sobretudo, notamos que no futuro essa sensibilidade será mais acentuada. Digo isto porque observamos nos mais jovens grande interesse em questões que se prendem com a protecção do ambiente e da saúde. A AS tem efectuado um elevado esforço para a boa sensibilização do uso eficiente da água bem como incentivar o consumo da água da torneira. Temo-lo feito através de várias iniciativas, como “A hora da gota vamos todos beber água” projecto desenvolvido nas escolas de 1º e 2º ciclo do Concelho em parceria com a Câmara Municipal de Santarém que aposta na execução de políticas pró-activas de promoção de hábitos de vida saudável e da importância da água na nossa vida. Apostamos também na explanação sobre o uso eficiente da água durante as visitas de estudo realizadas nas nossas instalações, sobretudo nas ETAR. É com muito gosto que no fim destas visitas ouvimos muitos dos alunos dizerem que vão alterar os seus hábitos de consumo,

 

Sendo a água da Águas de Santarém certificada, porque existe ainda um consumo tão elevado de água engarrafada?

A AS obteve no início de 2015 a Certificação do seu Sistema de Gestão Integrado em Qualidade, Ambiente e Segurança ao abrigo da Normas Internacionais ISO 9001; ISO 14001 e OSHAS 18000. O âmbito da Certificação abrande todo o ciclo urbano da água, isto é, abastecimento e tratamento de águas residuais. Todos os anos fazemos auditorias internas e somos auditados pela Entidade Certificadora BVC. Foi, pois, um esforço enorme de toda a organização, que é mantido e reforçado todo os anos, essencialmente para cumprimos os melhores standards internacionais e obrigarnos a melhorar continuamente. Este é o grande desafio. Devo dizer que há poucas entidades gestoras em Portugal com a Certificação nos três referenciais e nos âmbitos de abastecimento e saneamento. Isto dá-nos, evidentemente, uma enorme satisfação e demonstra não só a preocupação da empresa com o a satisfação dos seus clientes, mas com os seus colaboradores (Certificação em Segurança) e com a protecção do meio ambiente (Certificação em Ambiente). A qualidade da água que fornecemos é excepcional. Também obtivemos em 2014, o selo de qualidade exemplar da água para consumo humano atribuído pela ERSAR. Todos os anos o índice de cumprimento das análises da água da AS é superior a 99,5%. Recolhemos por ano mais de 750 amostras e fazemos cerca de 4.000 análises à nossa água. Temos absoluta confiança na água que fornecemos. Portanto, e respondendo à sua pergunta, o que poderá faltar, não obstante as várias iniciativas de sensibilização que temos feito, é comunicar mais e melhor para transmitir confiança aos clientes. A água da torneira é de excelente qualidade e muitíssimo mais barata do que a água engarrafada.

 

Na actual conjuntura de dificuldades económicas, há famílias que deixaram de pagar a factura da água? Que medidas de alcance social é que a AS possui?

É verdade que há famílias que evidenciam dificuldades em pagar pontualmente os seus encargos com a factura da água. A Águas de Santarém dispõe de medidas de apoio para agregados que demonstrem situações de carência económica: está disponível um Tarifário Social, em que os clientes podem beneficiar de Isenção da tarifa associada à disponibilidade do serviço: água e saneamento, e ainda de consumos até 15m3/ mês, tarifados ao custo do 1º escalão. Temos também o tarifário especial
para famílias numerosas (agregados com 5 ou mais elementos), em que podem beneficiar dos aumentos de escalões em 3 m3 por mês por cada elemento adicional do agregado familiar. Não menos relevante é o facto de termos em vigor uma campanha “Contas Pagas, Sem Custos Adicionais” que decorre até 31 de Dezembro de 2016,
com facilidades de pagamento e outras vantagens financeiras, em que é possível proceder à regularização das dívidas sem que sejam accionadas outras medidas. Caso os clientes não tenham dívidas com a Águas de Santarém, poderão ainda aproveitar este período para aderir à factura electrónica com 50% de desconto na tarifa fixa de água na primeira factura após a adesão.

 

Alguns comerciantes, em particular do Centro Histórico, desactivaram os seus contadores, uma vez que se queixam dos custos elevados da água. Esta tomada de posição preocupa, de alguma forma, a empresa?

Essas situações são analisadas com ponderação e com alguma preocupação, até porque um dos deveres dos utilizadores, domésticos ou não domésticos, é manter a ligação aos serviços públicos de abastecimento de água e de saneamento de águas residuais urbanas, sempre que os mesmos estejam disponíveis – que é o caso. Compete, portanto, à AS enquanto entidade gestora zelar pelo cumprimento das obrigações legais nesta matéria. O preço da água não é, certamente, o óbice ao desenvolvimento do comércio no centro histórico. A factura da água contém outras rúbricas para além da água, como por exemplo, a TRSU (tarifa de resíduos sólidos urbanos) que a AS cobra e cuja verba é entregue ao Município. Relembro que o Executivo liderado pelo Presidente Ricardo Gonçalves aprovou uma redução da TRSU
para estabelecimentos de comércio com até 3 trabalhadores, o que é uma medida muito positiva e de incentivo ao pequeno comércio local. Verifico, com satisfação, que não obstante as dificuldades, nos últimos meses têm aberto alguns novos espaços comerciais no Centro Histórico de Santarém, e sinceramente julgo que nos compete
a todos, scalabitanos, promover, visitar, incentivar os nossos comerciantes. Há alguns constrangimentos, é certo por exemplo, o alargamento e flexibilidade de horários, sobretudo das horas de almoço, é essencial. Mas se todos privilegiarmos fazer as compras de que necessitamos em Santarém, contrariando o hábito de muitos de ir a Lisboa fazê-lo, acredito que poderemos ter uma nova dinâmica no Centro Histórico.

 

Publicado em 30/09/2016

 

Noticia retirada do jornal Correio do Ribatejo

 

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